Aeroporto de Brasília ou a Babel moderna

11 maio, 2017 11 Comments

Quem tem amigos tem tudo! Eu tenho um em especial que é desses figuras, que tem uma visão engraçadíssima do mundo – mas não contem pra ele. Adoro os textos que ele escreve, a forma das histórias que ele nos conta. Afinal, tudo na vida é uma boa história.

Já havia feito o convite para ele escrever algumas coisinhas por aqui, ele havia dito sim para a publicação desse texto, demorou, mas aqui estamos.

Com vocês, uma crônica da vida moderna viajante brasiliense, por Ronaldo Persiano :mrgreen:

Chego no aeroporto e de longe vislumbro a tranquilidade daquele mar de almas.

Afinal, só é possível imaginar aquele tanto de gente sofrendo junta se for para pagar alguma penitência rumo ao paraíso.

E não qualquer paraíso, mas aquele paraíso com 42 virgens e fontes de maná e mel.

Fora isso, só sendo muito brasileiro para se desbundar de casa rumo ao cadafalso.

As múltiplas filas das poucas companhias aéreas são organizadas na forma do vambora-porra de raiz.

Na base do vai-na-fé-que-a-fé-não-costuma-faiá, entro em um amontoado de carcaças, guiado tal qual gado confinado rumo ao abatedouro do despacho de bagagem.

Nesse momento, paro e reflito sobre a minha condição humana. Olho para os lados, e no meio daquele nirvana de Dante, passo a observar os meus patrícios.

De um lado, uma mulher esperneia. Cleide não chega. O marido sua. Cleide não parece aparecer, mas quando chega, fura a fila.

Que pena, Cleide.

À minha frente, uma senhora cutuca o nariz.

O nariz não.

O cerebelo.

Isso.

A senhora cutucava o cerebelo pela narina esquerda, enquanto me observava de rabo de olho.

Era para se certificar de que eu não a observava em momento tão íntimo. Afinal, fila de checkin é pra isso mesmo.

Achei razoável.

Enquanto espero longos anos na fila, funcionários da empresa aérea dão o toque de elegância ao calvário.

Transformam aquela agonia numa feira livre.

Gritos e berros desesperados pelos últimos brasileirinhos que não chegaram na hora.

Um dos feirantes ameaça: ÚLTIMA CHAMADA! ÚLTIMA CHAMADA PARA IMPERATRIZ!

Não era a última chamada. O mentiroso ainda chamou a última chamada mais 2 vezes, o que fez daquela outra última chamada a antepenúltima chamada.

Decepção.

Mas cá entre nós: quem é que voa para Imperatriz, hein?

Ao chegar no balcão, o sistema trava.

A atendente, Karla Karen, elegantemente, urra pelo técnico em informática, o Gelson.

Gelson se move com a agilidade dum pombo epiléptico por meio da Babel brasiliense e, num toque, resolve o problema e me liberta do primeiro círculo do inferno.

Agora são só mais oito.

Ledo engano.

Fui jogado para um dos portões de letra: I, J e K.

Tenha certeza de uma coisa: se você é direcionado para os portões de letra, você não vale nada.

O círculo dantesco dos portões de letra existe para punir os integrantes da classe média.

O demônio que se diverte do lado de fora deve ser a Marilena Chaui.

Aliás, qual a lógica em haver três portões com letras se todos os outros são numerados? E por que começar em I? Só pra acabar em JK?

Que coisa mais ufanista.

E brega.

Mas essa não é a questão. A questão é que o saguão dos portões de letra é pouco maior que uma cela da Papuda.

Ali ficam 768 animais onde caberiam 8. O negócio é tenso, minha gente.

No meio daquele rebanho, lembro de Zé Ramalho e me sinto marcado ê!

Sinto-me um povo feliz.

O sistema de som anuncia embarque para Florianópolis pelo portão I. O telão do portão I anuncia o voo para Curitiba.

Vou para o portão J, que anuncia voo para Florianópolis. Descubro que o voo é para Foz do Iguaçu.

É como o refresco do Chaves: sabor de limão, cor de groselha, parece de tamarindo, mas é de maracujá.

Isso é vida.

Como um dos condenados dos portões de letra, entro num ônibus que jura de pé junto que me levará até o meu 14 Bis do século 21.

O ônibus até que vai me levando, mas o avião está tão longe que vejo a placa de Uberaba antes de chegar ao embarque.

Aeroporto de Brasília é amor.

Já dentro do avião, visto o meu assento da classe animal.

Ou da classe canil por 50 paus a mais.

Poltrona feita para gente de um metro e meio que tem que me caber.

Acho um conforto gostoso a união dos condenados na classe animal.

O voo não sai. Falta a documentação.

Não sei que diabos de documentação é essa, mas deve ser importante.

Pela quase uma hora de atraso, o boy deve estar na fila do cartório até agora tentando autenticar a firma do piloto.

Vida dura.

Na Babel brasilense, o avião se prepara para decolar.

Portas em automático.

Floripa que me aguarde.

____________________

** Ronaldo Persiano é mais um barbudo desse mundo, que acredita no poder do Cálculo para salvar a alma das pessoas e que tem dedicado seu tempo em ser o Dindo Master The Best desde o ano passado. Também curte cafés.

Camilla Kafino

11 Comments

  1. Responder

    Aninha Lima

    15 maio, 2017

    Eu ri muito alto com o refresco do Chaves. Uso esse exemplo para muita coisa na minha vida achei que mais ninguém lembrava disso!! adorei sua crônica, parabéns!!!

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  2. Responder

    Carina Takahama

    13 maio, 2017

    Quero mais! hahahaha
    Texto divertidíssimo esse! Fui me entretendo enquanto contava a história e tirava sarro das situações normais da vida.
    Parabéns!

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    Juliana Moreti

    13 maio, 2017

    A-DO-REI esse texto!
    Que delícia de leitura recheada de tanta referência cultural! Amei saber que a Chauì ganhou uma nova profissão.. Vou mandar um bilhetinho para ela!
    hahahahaha

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    maio 13th, 2017
    Camilla

    Huahauhauahua!! Sempre bom descontrair =)

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    Itamar Japa

    12 maio, 2017

    Hehe, viajei no conto do nosso amigo! Muito bem humorado. Está sensacional! 🙂

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    Lulu Freitas

    12 maio, 2017

    Lindo texto, super poético e diferente. Amei!

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    Leo Vidal

    12 maio, 2017

    Interessante crônica e gostei da ideia de trazer um pouco do mundo de viagens nesta forma. Parabéns pela iniciativa e para seu amigo pelo post.

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    maio 13th, 2017
    Camilla

    Obrigada, Leo. Também adorei o formato. Dá uma quebrada gostosa no tradicional.

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    Paola Ramos

    12 maio, 2017

    Que crônica assustadoramente divertida! hahaha A gente vai lendo e pensando “que inferno é esse? pq as pessoas passam por isso?” mas ao mesmo tempo vamos nos dando conta de que fazemos com frequência, e que apesar de parecer estranho quando narrado assim, no final tudo dá certo!

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    maio 13th, 2017
    Camilla

    E a gente adora!! hauhauahuahau. Vai entender 🙂

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    Laura Sette

    12 maio, 2017

    Compreendi a sua insistência, Camilla, em convidar o Ronaldo a escrever por aqui. Excelente crônica! Amo crônicas! Dei várias risadas com alguns toques sutis de humor. Muito bom! Parabéns!
    bjos

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